quarta-feira, 20 de julho de 2022

Órfã

 

Tem uma dor.

A dor que me fratura desde...

A dor que me atravessa o peito

como madeira da cruz.

Que arde e atordoa e paralisa.

            (Quisera viver sem ela.)

Tem o mundo em torno

e nada que está nele me salva.

 

A dor tem a face do rosto que me deixou perdida.

            O rosto que partiu e me marcou.

            A face do meu pai que não me sorri mais.

Não me pega mais com sua mão quente e firme,

nem mesmo me faz sofrer com sua própria dor.

A dor dele cessou e abriu em mim uma cratera

            intransponível

que me separa da minha alegria.

 

Mas às vezes, Ele vem.

E seu amor me faz submergir na alegria que não é a minha,

mas que se faz minha,

e me salva de mim.


(Março de 2021)

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