sexta-feira, 21 de junho de 2024

Perdão

Vi de longe a menina 
que foi deixada sozinha.
Ela olhava perdida para onde 
meus olhos a encontraram.
O olhar límpido me perguntava
e eu não sabia dizer por que 
só ela estava ali.

Vi de perto a moça acompanhada
de quem não sabia amar.
Sofria e não entendia
por que o amor parecia
um rosário de perda e dor
e frustração.
O olhar cruzou o meu 
e me acusou pelas más escolhas.

Vejo agora a mulher envelhecer.
O olhar profundo responde
numa mistura aguda de
dor e esperança.

Eu e o Amor que me escolheu
mergulham a menina e a moça
no mar que cura porque penetra
os buracos todos da dor antiga
que atraía os fios da água turva.

Embebida da água viva
que emana de Ti, Amor,
me perdoo por ter me deixado 
enganar por tantos olhos turvos.

Eu procurava em vão as nascentes
limpas em meio à turbidez
porque eu mesma só via
por entre nuvens de dor e medo.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Fios de água turva

Vejo fios de água turva
correrem por todo lado
na terra
nas árvores
nas casas
nas antenas
na pele das pessoas
como caminhos de 
larva migrans.
Vejo os fios turvos
que correm entre
águas e ares
além da terra.
Não se misturam com nada
mas marcam tudo o que tocam.
Não é possível
limpar
a água turva.
Não é possível extingui-la.
Só o que podemos é restaurar
a beleza do que foi ferido por ela.
Curar embebendo com cuidado
e calma cada ferida -
até as mais expostas.

A água turva nasce no coração ferido.
Corre como todas as águas, seguindo seu leito.
Fere tudo por onde passa.
E cada ferida é nova fonte de água turva.
Lamber as feridas com amor desdobrado
é a única coisa que Ele nos ensinou.

Curar as feridas
é estancar as fontes do desamor.

Amigo

O que sei do Deus  é o calor da sua companhia. Transcendência que me acompanha no chão da vida, tecendo comigo a história que é o que sou. O...