domingo, 5 de outubro de 2025

O que sou

Já disseram que somos caniços pensantes.
A coisa frágil e simples que pensa.
Tenho para mim que caniço é aéreo demais.
Meu modo de não pensar toca a terra com patas grandes
que quase são raízes entrelaçadas com o chão.
Patas de paquiderme.

Minha pele imensa capta teu sopro, Amado, 
e o transforma em palavras que são meu pensamento.
É assim que me vejo feita de Ti.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Do que preciso

Piso no chão firme da terra
e combato as lutas que Tu me prescreves,
Amor que me conduz.
Além disso, passo as tardes ao correr
das luzes do céu e recebo a noite 
sabendo de antemão qual é a lua do dia.
Mais do que isso, não sei.
Mais do que isso, não quero.
Quero já e sempre
apenas o Teu amor que me faz festa.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Dádiva

Puxo, fio por fio,
as linhas escritas
pela dor em mim.
Em cada um deles
me descubro viva.
Ao lado da dor
a vida faz vibrar
uma outra corda.
Estar viva é alegria.

E Vida 
é outro nome Teu.

sábado, 16 de agosto de 2025

A matéria do Deus

Estou no escuro
Olho por uma fresta estreita 
e vejo luz
Como num salão de dança
formas e vultos se entrelaçam
e formam uma senha
que devo desvendar

Por meio do fio de sentido
que passa de uma forma a outra
sei que nada está desligado do resto
Uma coisa toca a outra -
seja matéria ou sonho

Cada coisa tem uma história e
cada história uma razão

O que não é matéria é sonho

Deus é sonho


terça-feira, 29 de julho de 2025

Desacerto

A cor do crepúsculo me comove como o pranto da criança com fome.
Beleza e horror se misturam no centro do coração que sente.

Sagrada infame

Vejo os fios se entrecruzando
- misturas encontros desenlaces -
vejo os fios que se tornam 
frenéticos à medida em que 
tocam as águas profundas
do que sou.
Não há um segredo.
Há apenas o que sempre vi
sem saber nomear nem desenhar.
Assombro alegria espanto.
Gargalhada e pranto frente às belezas do mundo.
Entre elas o desejo que corre no sangue dos seres que têm vida.
Mais ainda naqueles que, sem saber, sabem.
Sabemos pouco dos fios frementes 
que percorrem nossas veias
como a linfa que faz viver.

Ah, a beleza infame e sagrada 
da linfa
que me faz viver
como sou.

E o que sou é um grito de desagravo contra tudo o que tentou me desviver.
    À mim e às outras.
    Filhas do desagravo.
    Filhas do Deus que liberta.
    Infames contra os deuses que aprisionam.
    Sagradas como a linfa.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Dor

Do fundo do sono
em que descanso em Tuas mãos,
vejo as iniquidades do mundo.
E ainda assim, descanso em Ti.
Mas os rios de sangue e dor
atravessam os sonhos e a pele.
Protegida por Ti, inteira em mim
e no amor que a Ti confio,
imploro-te que me expliques.

E me assombro ao ver também em Teus olhos o horror.

Pelo avesso

O Amor  me invade  o coração e me deixa  toda cheia  de alegria e comunhão  com a beleza  do mundo. O Amor entranhado  em meu coração rasga ...