domingo, 27 de fevereiro de 2022

O ESPINHO CRAVADO

Hoje me demorei no banho -
a água escorria tão boa na minha pele
pronta para o prazer.
Eu tinha tempo
água
calor
espaço
alegria.
Eu tinha o coração aberto
à dádiva que é viver.
Os dons escorriam em mim
com a água
nem quente nem fria.
Nada me faltava
nada me falta
e a Tua presença me aquece
cada dia
e a cada dia não me falta o pão.
Mas a dor irrompeu no meio do meu peito.
Juntou-se à água do banho a lágrima ressequida.
Porque a tantos falta 
a água
o tempo
o calor
a alegria
o espaço
e o pão.

DISPARATE



Se a morte chega
vejo Teus passos
Tua mão na minha pele
Teu sopro na nuca
como um sobressalto.

Mas não sei como me deixar para trás
tal como a morte me pede.
Ir contigo sem mim.
Fazer do amor a Ti
maior do que o amor a mim
e aos que amo.
Deixar sem mim os que me querem.
Deixar com eles o meu amor sem mim.

E Te olho e Te percebo
e não sei dizer 
por que me ensinaste o amor
se depois me pedirias para deixar os que amei.

(Fevereiro de 2021)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Amantes

 

Quero chegar à morte
como a amada que encontra o seu amado
como a gota que atinge o leito do rio
ou o girassol que finalmente alcança a luz.
Quero chegar à morte como
quem chega ao lugar único 
em que basta ser.
Quero ser em Ti,
eu que toda oca te chamo
sem voz.
Eu que não sei 
se lá estarei
onde finalmente
Tu estarás -
ou se de mim restará 
apenas uma memória
perdida naqueles em que vivi.

(Outubro de 2020)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

O Deus que me toma

 

é hora de dormir, mas não consigo
você me importuna, me alegra, me revive
meu corpo arde, mas não é desejo
é alegria em cada célula
prazer que se desdobra
no sorriso que força meu rosto
que finge tentar dormir

é hora de dormir, 
mas você não me deixa
povoa meu corpo como água 
que penetra a esponja nua
eu toda penetrada de você
por dentro, por fora, 
na carne, no rosto

como dormir nessa alegria?
como negar a sua entrada,
se te quero tanto?
durmo enfim com você em mim
e quando acordo sou nova outra vez

(Outubro de 2020)

Sangue e dor


Vejo no céu
tons de sangue
após o descer do sol.
No mesmo instante,
corre o ar fresco 
que me preenche o espírito
e me põe aqui diante de Ti,
sem palavra e sem súplica,
nua sentindo o pulsar.

O que pulsa sou eu e Ti.
Um junto ao outro,
um no lugar do outro.
Por dentro,
e sobre o meu corpo,
nenhuma dor.

A única prece possível
é a que Te louva.

E a dor que sei que há,
porque lá está no mundo,
e que sei que em breve vai me assaltar
mais uma vez,
Te entrego,
como se fora
um tesouro,
pois é dessa dor
que nasce o amor que é o Teu.

(Setembro de 2020)

Amigo

O que sei do Deus  é o calor da sua companhia. Transcendência que me acompanha no chão da vida, tecendo comigo a história que é o que sou. O...