quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Amazonas

A prainha do rio da infância
era grande para correr e brincar.
A praia do rio da adolescência
era enorme para o alcance
do meu olhar que já Te buscava,
Amor meu.
A prainha da lagoa salgada
era quente e grossa 
e atiçava meus desejos,
da infância à adolescência.
As praias dos mares que conheci depois
são imagens dessas outras,
com a diferença do horizonte sem fim.
Por isso sonho com o rio maior
- Amazonas -
que junta o silêncio dos rios
com o olhar infinito dos mares.

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Quietude

Fora, chove.
Em mim, paz.
Flutuo ao sabor
do que me preenche.
Não sinto fome
sede
saudade - 
nenhuma falta.
Amores estão longe
e os tenho comigo.
O desejo está todo inteiro
- imóvel -
como o mar inteiro quieto.
Dura pouco e é belo como 
Teus passos sobre as águas,
Amor que sacia.

Quando Teu sopro remexer 
tudo outra vez,
aceito sem lamento
a fome
a sede
a saudade
o desejo inquieto.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

A menina do mar

Conversa com o poema 
"Lugar", de Laudeir Borges
(no livro Insonhos, Ed. do Autor)


Em mim, foi sempre o mar que
apesar de absoluto
remexeu minhas pequenezas.
Além do mar, 
lagoa
rio
riacho
córrego -
as águas todas 
que me centravam em mim.
Mas a água é mole
e mole ficou meu centro.

Do céu, sempre tive medo -
onde segurar?
como boiar?
Nem de avião eu gosto.

O que me faltou foi o chão.
A menina do mar
não teve chão -
balançava como um barco à deriva.
Mas passaram-se as décadas -
uma, duas, três, quatro, cinco e mais um pouco -
e pude ver nascerem frágeis raízes
para a menina do mar.

Tomei a memória da roça da infância e
desejei um quintal de terra.
O chãozinho em que moro hoje
não é meu e está numa cidade 
em que não tenho laços,
mas é lindo e rico
com a árvore antiga que se impõe
e as fruteiras jovens que tanto dão.
Entre elas, a corrida das cachorras
e o entardecer com as cores do cerrado,
além de
cupins
formigas
sapos
lagartos.

Mas ainda sonho.
Para o futuro quero um chão de areia -
terra firme em frente ao mar.
Eu e Deus.

O beija-flor

Ela olha pela janela à procura do beija-flor
que vem beijar a garrafinha que ela enche todos os dias
de água, açúcar e afeto.
Ela olha cada vaso de flor à procura de botões
e não se cansa de falar e mostrar a cada um que aparece.
Ela pergunta sobre o céu e a chuva
e agradece a Deus quando chove.
Ela quer ler todos os letreiros da TV
e saber de todas as novidades 
da família e do mundo.
Não se cansa de estar pronta para ser abrigo e ajuda
para os que ama.

Mas é também pedra dura frente aos 
que não ama.
Joga pedra em mulheres, gays, negros e pobres - 
reproduz o que o mundo lhe ensinou.
E eu me recolhi em horror
vendo o horror das palavras e atos dela.
Me fechei em desamor,
pedi que Tu me ocupasses para amá-la,
Amor Maior.

Mas Tu me querias 
abertura para mais amar.
E Tu me fizeste ouvir dela:
"não sabem que sou solidária?" -
para que meu coração desaguasse
em amor e perdão.

Minha mãe já foi uma rocha.
Agora se transforma num beija-flor.

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Companhia

Quando dei por mim
tinha um homem ao meu lado.
Olhei, escutei, acompanhei.
Gostei dele como gosto de olhar o mar.
Sei que Tu estás comigo,
Amor que me aquece,
e por isso estou toda entregue
para que seja feito o que Tu queres.
E se o teu desejo for o mesmo meu
terei me transformado na matéria
do sonho que me conduz pela vida:
caminhar com alguém.

sábado, 13 de janeiro de 2024

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Água turva

Num canto de mim
tem uma água turva
em que luz nenhuma penetra.
Canto sem vida
onde o amor não brota.
Água turva que me fere a alma
e derrama tristeza
em tudo em torno.

Não há cuidado
capaz de transformar em luz
o que insiste em turbidez.

Clamo por Teu sopro,
Amor que consola,
para que o leve tremor
que tem início na poça turva
não me aniquile em mim.

Clamo por Ti,
Amor que me faz transparência,
quando absolutamente
nada consigo enxergar. 

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

O que posso dar

Cheguei como quem não quer nada.
Me ofereci sem fazer esforço
e o que tenho para dar é
exatamente apenas o que sou.
Cheguei sem pressa
e olhei nos olhos
dele, procurando ver
a fundura do lago de amor
que eles contêm.
Como quem avalia o poço
antes de saltar,
olhei com o cuidado
de quem se quer vida.
Nos meus olhos
ele viu poço fundo -
mas borbulhante.
O amor que tenho
e que ofereço
é grande e fundo
e provoca movimento.
Porque Tu me ensinaste assim,
Amor que desconforta,
e assim me tornaste
nem sempre desejada.

Amigo

O que sei do Deus  é o calor da sua companhia. Transcendência que me acompanha no chão da vida, tecendo comigo a história que é o que sou. O...